Mais comprometimento = menos produtividade?
Escrito por Juan Bernabó - em 06/10/2011
Este post foi motivado por um post de um bom amigo, onde critica a mudança no Scrum Guide do termo “Commitment” para “Forecast”, e deixa claro que ela promove um ambiente mais propício para as equipes evitar o “compromisso” e se sentirem cada vez mais “Galinhas”.
O que me motivou foi que nele fica claro um dos problemas que vejo mais e mais nas organizações que tentam adotar Scrum porém o fazem sem mudar o modelo motivacional e o modo de operação dos processos.
Porque acredito que + comprometimento causa – produtividade?
A lógica nas organizações de buscar mais “comprometimento” nas pessoas, tem criado problemas de produtividade, ou digamos, oportunidades perdidas de obter mais produtividade.
Na verdade esse é o ponto mais sutil e menos entendido de Scrum, Lean e Agile, e é o que faz que a maior parte das equipes trabalhem a 50% do que poderiam, na verdade tem estudos onde se fala em diferenças em produtividade de ate 3000% em pontos de função per capita com a media do mercado alguns anos atrás.
Administrar equipes e organizações é interessante, eles podem ser entendidos como Sistemas Complexos Adaptativos (CAS) onde muitas das suas variáveis são não lineares, isto deixa os Gestores 1.0 totalmente desnorteados, é quando escuto falar sobre as “pessoas são complicadas”, na verdade deveria ser “as organizações são complexas” e realmente o são, por isso precisamos mais de novos conceitos de administração do que nunca.
Uma forma de entender os loops de causas – efeitos – causas
Caso de para entender que existe um conflito, ou uma situação que não se estabiliza, onde o processo fica flutuando, e parece que existem tensões entre duas partes, uma coisa que gosto de fazer para ajudar outras pessoas a entender é uma árvore de realidade atual para conseguir consensuar entre vários agentes de um mesmo sistema, quais são os ciclos que mantém o sistema na condição atual gerando mais efeitos indesejáveis.
Para entendê-lo é simplesmente ir lendo ele de baixo para acima verbalizando com a leitura de cada entidade, SE “o texto da entidade” ENTÃO “o texto da entidade de cima” o que nos ajuda a explorar situações de causa e efeitos que tem muita profundidade.
A mesma situação no mercado financeiro
Digamos que você é um corretor de ações e você seja forçado pelos teus clientes a se “comprometer” em entregar um determinado lucratividade na compra de determinadas ações que eles irão fazer, teu cliente insiste em querer que você se “comprometa” em alguma “meta”.
Você cederia a pressão e se “comprometeria”?
Qual é a implicação deste compromisso?
Ele garante o retorno?
Bom, no mercado financeiro já sacaram, quem faz “promessas” de retorno alto em investimentos de alto risco talvez esteja jogando outro jogo
Quando alguém assume riscos, ele cobra por isso. Investimentos que não tem praticamente riscos tem rendimento de “poupança”, ou seja assumir risco custa, e custa caro.
Quando é requerido a uma equipe que assuma o “risco” e se “comprometa” com um retorno especifico, sem variância, sem risco, você esta pedindo para ela te dar “retorno de poupança”.
O que isto causa é que o risco fique embutido, ao invés de ele ficar exposto e gerenciado, as equipes estimam pra cima, e puxam menos pontos do que poderiam porque tem “risco”, isso é manifestado em reuniões de planejamento onde o PO tem que “entubar” histórias na equipe, e cria um ambiente de baixa confiança, onde claramente PO e equipe tomam postos contrários numa dinâmica de “negociação”, onde tudo que uma parte ganha é resultado da perda da outra parte.
A mesma situação nos esportes
Se você fosse um atleta, e tivesse que melhorar teus tempos, porém cada vez que o teu tempo não fosse atingido você recebesse um choque elétrico, você se colocaria uma meta que teria risco de não atingir?
Maestria, Propósito e Autonomia
A única forma que vi Agile funcionando bem como realmente deveria, foi quando fizemos um trabalho em organizações para abandonar o paradigma de motivação de “chicotes e cenouras” e substitui-lo pelo que Daniel Pink chama de “Autonomia, Propósito e Maestria”.
Neste momento a tua equipe se torna uma banda de jazz, que não precisa se “comprometer” eles gostam da música, eles gostam do ritmo, eles estão engajados.
Porém isto não é para qualquer tipo de organização e líderes, a maior parte das organizações só consegue resultados através da coerção, do chicote e da cenoura, porém perdem o melhor que as pessoas poderiam contribuir.
Equipes tem a obrigação de fazer o seu melhor, esse é o compromisso que eu busco neles, mesmo perdendo, se eles fizeram o seu melhor esta ok.
A distinção no Guia de Scrum, é uma advertência, assim como fazem corretoras quando anunciam novos investimentos, que o risco, a incerteza e a variância continua existindo e que é necessária co-gerencia-la, e não repassa-la.
Qual é a meta?
Goldratt falava no livro a Meta, “Diga como me medes e te direi como me comporto”. Medir uma equipe, mesmo que implicitamente, cria um abismo do comportamento quando ela é regulada duas estruturas de metas diferentes:
- Se comprometer com uma quantidade X de pontos no Sprint, ou pior com uma data de entrega futura de um escopo fechado.
- Se comprometerem a se esforçar para fazer o seu melhor, a entregar um trabalho de alta qualidade e a melhorar continuamente
Em que estas metas diferem?
Na primeira situação podemos observar que:
- O risco tem sido repassado para a equipe
- O papel do gestor passa a ser “pedir mais comprometimento” quando não se atinge a “meta” e desconfiar que esta muito fácil quando atingida continuamente.
- As coisas vão bem se a equipe entrega o que se “comprometeu” e vão mal se não conseguem entrega-lo
- O trabalho é empurrado no ritmo do “forecast”, independentemente se esta rápido ou lento, se para cumpri-lo tem que fazer longas horas extra ou abaixar a qualidade.
- O risco continua com a gestão, que a gerencia com a ajuda da equipe e dos clientes.
- A equipe passa a se orgulhar pelo trabalho bem feito, são os primeiros sinais da Maestria.
- A equipe tem autonomia para implementar melhorias no processo, motivação pela Autonomia.
- A gestão criou uma urgência através da resignificarção do trabalho, motivação pelo Propósito.
- O papel da equipe é entregar na maior taxa sustentável possível do processo, sem descuidar a qualidade e melhorando continuamente
- O papel da gestão é cuidar que nada interrompa a agregação de valor, e procurar que exista tensão de operação no processo, exista “puxada” suficiente.
Parece naif, porém tenho presenciado com meus olhos equipes que triplicado sua velocidade, simplesmente porque ao invés de ser cobrados pelo “compromisso” passaram a ser cobrados “pela sua a meta do Sprint, e entender que os pontos são simplesmente uma previsão.
O trabalho é empurrado ou puxado?
Scrum deveria ternos revelado a fantástica revolução que a Toyota fez, quando fez uma coisa impensável para a industria naquele tempo, ao invés de governar os seus sistemas de produção por um plano baseado em previsões empurrando o trabalho no sistema, passou a governar o seu sistema de forma sincronizada usando um mecanismo simples, a disponibilidade do processo seguinte, ou seja o processo seguinte passou a puxar na velocidade que ele conseguia entregar e assim conseguir determinar a velocidade na qual o trabalho deveria fluir, e caso existissem defeitos se faria parar todo esse fluxo, automaticamente parando todos os processos.
Qualquer implementação de Scrum/Agile/Kanban, que não tenha um fluxo puxado, e que baseie o seu ritmo de produção em planos derivados de “previsões”, esta subvertendo a lógica, e tera problemas de baixa velocidade, desincronização, dificuldade de melhorar os processos, falta de slack necessário para aumentar a produtividade, falta de moral, e baixa qualidade, incapacidade de pagar as suas dividas o que ira trazer baixa produtividade futura.
Se esta ruim, não esta bom
Chegar nestas conclusões não foi nem barato nem fácil, o custo com 10, 50 ou 500 desenvolvedores que funcionam a 50% do que poderiam e que geram divida para a empresa para os próximos 5 a 10 anos e complicado.
Seguir metodologias é complicado, por isso é necessário que possamos adquirir o hábito como organização de ficar Continuamente Insatisfeito, este é o assunto que me esta deixando acordado até tarde.

